Sente que não está à altura da sua função no trabalho?

Descubra como aceitar os desafios que o vão levar mais longe nos seus objetivos de carreira e não sofra mais com o síndrome de impostor.

Talvez sofra de síndrome do impostor

 

De acordo com um estudo conduzido pela empresa de desenvolvimento de carreiras inglesa Amazing if, um terço dos millennials sofrem de síndrome do impostor no trabalho. Este estudo destaca que uma “significativa falta de confiança afeta os jovens profissionais ingleses entre os 18 e os 34 anos, que se sentem frequentemente como uma fraude e prestes a serem desmascarados pelos seus pares e chefes no trabalho”.

As pessoas que sofrem de síndrome do impostor são incapazes de admitir e valorizar os seus feitos, vivendo com a sensação de nunca serem suficientemente boas. Mais do que isso, por maiores que tenham sido as suas conquistas, sentem que são uma fraude que a qualquer momento será descoberta e que, na verdade, os seus aparentes sucessos se devem à sorte, à ajuda de terceiros ou simplesmente, a um tremendo equívoco.

Parece estranho que uma geração a que normalmente se associa muita autoconfiança e até uma certa arrogância, tenha tantos profissionais a sentir que não estão à altura da sua função nem das expetativas sobre eles colocadas no trabalho e leva-nos a pensar na quantidade de pessoas que aparentam confiança quando na realidade se sentem extremamente inseguras e ansiosas.

Por maiores que tenham sido as suas conquistas, as pessoas com síndrome do impostor sentem que são uma fraude e que os seus aparentes sucessos se devem à sorte, à ajuda de terceiros ou a um tremendo equívoco.

 

Se frequentemente se sente como uma fraude no trabalho e fica ansioso com a possibilidade de alguém “descobrir” que não é o profissional competente que aparenta, é possível que sofra de síndrome do impostor.

Apesar de penosa, esta sensação de fraude, de não estar à altura, é muito mais frequente do que talvez imagine, afetando cerca de 70% das pessoas em alguma ocasião ao longo da vida. Muitas pessoas famosas, como a argumentista Tina Fey, a atriz Natalie Portman, a COO do Facebook Sherly Sandberg ou a grande poetisa e ativista americana Maya Angelou admitiram publicamente sofrer de síndrome do impostor e sentir-se grandes fraudes em vários momentos das suas carreiras. E se não lhe passou ao lado o facto de todos estes exemplos serem mulheres, é precisamente porque a maior parte das pessoas com esta síndrome são do género feminino. Além disso, muitas das pessoas que sofrem deste problema desempenham funções de topo ou de grande exposição mediática, sendo esta uma condição muito frequente no mundo académico, nos quadros de topo de grandes empresas e no universo artístico.

 

Natalie Portman admitiu publicamente sentir-se uma grande fraude em vários momentos.

 

Todos os dias, atores, escritores, CEO, alunos de doutoramento – mentes brilhantes, altamente criativas e aplaudidas pelo seu talento – saem de casa, pisam o palco, ocupam a cabeceira de uma mesa de reuniões e escrevem artigos para as mais prestigiadas revistas científicas, sentindo que estão a enganar alguém e que é só uma questão de tempo até a sua farsa ser descoberta. E todos os dias também, nos cruzamos com alguém na empresa que, apesar de todas as evidências da sua competência, sente que não está à altura e vive na ansiedade de deixar cair a sua máscara.

 

Quer faça parte da geração millennial, seja homem ou mulher, ocupe um cargo de liderança ou esteja a dar os primeiros passos numa nova função, saiba como pode ganhar confiança, sentir-se mais confortável no seu dia a dia profissional e aceitar os desafios que o vão levar mais longe nos seus objetivos de carreira.

 

Identifique

Um profissional com a síndrome do impostor pensa que não tem talento para a função que ocupa e que o seu sucesso se deve muito mais às suas circunstâncias do que às competências pessoais. Se chegou ao lugar que almejava, pensa que enganou toda a gente na entrevista de emprego, fazendo-se passar por alguém muito melhor do que realmente é e, portanto, tende a viver o dia a dia de trabalho com medo de ser desmascarado. Resultado: tenta passar despercebido, vive com medo, não aceita desafios (por exemplo, falar em público pode denunciar a sua suposta incompetência) e não desenvolve o seu potencial. Se se identifica com esta descrição, provavelmente sofre desta síndroma e é importante que perceba que, não só tem muitas pessoas à sua volta que sentem o mesmo, como é possível ultrapassar esta condição ou pelo menos, não deixar que ela o condicione.

 

Concentre-se no presente

Parece óbvio, mas não é. Quando o “impostor” dentro de si lhe grita que não devia estar naquela reunião ou que a audiência da sua apresentação vai perceber que não sabe nada do que está a falar, pare e foque-se no presente, na tarefa que tem em mãos. Empurre os “ai meu Deus, vou ser apanhado” e os “eu não percebo nada disto, só estou é a fingir muito bem” para fora da sua mente e concentre-se em comunicar as suas ideias e em fazer o trabalho em si. Dê um passo de cada vez e canalize a sua atenção para a tarefa e não para o seu valor enquanto pessoa ou para a forma como acha que os outros o estão a julgar. A meditação – sobretudo pela forma como nos ajuda a focar-nos no presente e a suspender o julgamento – pode ser uma prática muito útil.

 

Aceite as suas imperfeições

Aliás, aceite que ninguém (não é só você!) é perfeito. Mais do que isso, ninguém nasceu ensinado e pronto a exercer um determinado cargo. Temos tendência a avaliar as pessoas pela obra feita: lemos um livro e achamos que o escritor é genial, assistimos a uma palestra e pensamos que o orador nasceu com o dom de falar em público. Mas aquilo que não sabemos, é o trabalho que essas pessoas tiveram para chegar a esse nível. Um escritor pode levar anos a reescrever a primeira versão da sua obra, um cantor dedica horas a aperfeiçoar a técnica perfeita que ouvimos em cima do palco e um orador – o Steve Jobs era disso um excelente exemplo –  dedica horas e horas a ensaiar o seu discurso até que as palavras que colocou no Powerpoint se tornem tão naturais que parecem fluir espontaneamente. É preciso trabalho e dedicação para dominar uma competência. Quanto mais depressa perceber isto, menor será a pressão que coloca em si para ser perfeito. Se acabou de chegar à empresa, é natural que tenha dificuldades, que não saiba tudo. Se nunca chefiou uma equipa, é normal que esteja nervoso perante a responsabilidade. Permita-se não saber tudo, olhe para as coisas com curiosidade e vontade de aprender sem medo de parecer incompetente. Acredite, os seus colegas e chefias vão valorizar a sua humildade e gostar de responder às suas dúvidas.

 

Ganhe noção das suas forças e conquistas

É muito fácil pôr o foco nas nossas fraquezas, no que fazemos não fazemos bem. Quando fazemos algo que achamos que correu mal revemos mentalmente a situação, remoemos e ficamos muitas vezes presos revivendo vezes sem conta essa sensação de fracasso.

Aquilo que lhe proponho é que se sente com calma e faça uma lista das qualidades, competências e conquistas que o tornam a pessoa certa para a função que ocupa. Houve todo um percurso que o levou onde está neste momento. O que faz bem? Quais as suas qualidades? Que provas já deu no seu percurso? Que dificuldades ultrapassou? O que o torna único? Quais os grandes marcos na sua vida e que papel desempenhou para que eles acontecessem?

Registe tudo isto (se não está habituado a olhar para o que faz bem, é normal ter dificuldade em encontrar coisas boas em si, mas dê-se pelo menos 15 minutos para fazer este exercício: não vale desistir!), guarde e leia regularmente o que escreveu. Em situações em que está mais fragilizado ou descrente, este inventário das suas qualidades pode ser um excelente recurso para se lembrar de tudo o que tem de bom, mas que de forma automática não consegue ver.

Também pode ser útil manter uma pasta de todos os emails com feedback positivo dos seu chefe, colegas e clientes.

 

Tome nota do seu vocabulário

Repare se está a minimizar as suas conquistas através das palavras que usa. Se sofre da síndrome do impostor, provavelmente responde a um elogio com expressões como “fiz isto num instante”, “nem está nada de especial” ou “podia ficar melhor”. As palavras são poderosas e além de diminuírem o seu esforço perante os outros, “amachucam” a forma como se vê a si mesmo. Aproprie-se do que fez, tenha consciência do esforço que uma tarefa implicou e verbalize-o. Não se trata de perder a humildade e de ser arrogante nem mesmo de apregoar que é fantástico. Ser adulto é ser responsável por aquilo que se faz – para o mal, mas também para o bem. Por isso, se cresceu com a ideia de que não lhe fica bem assumir o seu sucesso, adote uma estratégia que o faz usufruir de todo o seu potencial. Traga as suas vitórias à consciência e responda afirmativamente quando o elogiam (mesmo que no início lhe soe artificial pela falta de hábito). Um simples “obrigado, dediquei muitas horas a este projeto e também acho que ficou muito bom” ou um “obrigado pelo feedback. É bom saber que o meu trabalho é útil para toda a equipa” estão ótimos.

 

Fale com outras pessoas

Estabeleça uma rede de confiança no trabalho. Esforce-se por se integrar, construa parcerias, crie boas relações e fale deste assunto com um ou mais colegas com quem já tenha confiança. Vai ficar surpreendido pela forma como os outros o veem – certamente muito diferente da forma como se vê a si próprio. Mas vai surpreender-se igualmente com a quantidade de pessoas que também se sentem – em maior ou menor escala – impostoras.

 

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