Steve Jobs fez de mim uma melhor oradora

Steve Jobs fez de mim uma melhor oradora

Sempre que tenho de fazer uma apresentação em público, penso em Steve Jobs e na forma como ele a faria.

Tenho a certeza de que não serei a única. Mais do que tecnologia ou um conjunto de funcionalidades, Steve Jobs vendia sonhos e benefícios emocionais. Os momentos em que pisava o palco eram, não apenas esclarecedores e informativos, mas inspiradores, mágicos. Inesquecíveis. E, caso tenha vivido noutro planeta durante a última década e não saiba exatamente do que estou a falar, recorde aqui a famosa keynote de 2007, em que o cofundador da Apple apresentou ao mundo, nada menos do que o iPhone.

A boa notícia é que não é preciso ter o carisma de Jobs, ser um guru da tecnologia ou vestir camisolas de gola alta pretas para ser um grande apresentador. Aliás, uma das coisas que aprendi a observar Jobs é que é importante deixar a nossa personalidade brilhar, conhecer o nosso registo e ser autêntico. Por isso, ponha de lado a ideia de arranjar uns óculos redondinhos e desengane-se se acha que é preciso ter a confiança de quem fatura milhões para fazer uma apresentação incrível. Qualquer que seja a sua experiência, a sua personalidade (tímidos crónicos incluídos), o tema ou a audiência, há estratégias testadas e comprovadas que podem ser incorporadas nas suas apresentações e que o vão ajudar a criar momentos memoráveis e capazes de inspirar o seu público, quer seja uma audiência de centenas de pessoas, ou a sua pequena equipa durante a apresentação semanal de objetivos.

 

Qualquer que seja a sua experiência, a sua personalidade (tímidos crónicos incluídos), o tema ou a audiência, pode criar apresentações memoráveis e capazes de inspirar o seu público.

 

Uma nota: além de ter assistido às apresentações de Steve Jobs inúmeras vezes, aprendi muito sobre a forma como o fazia através da leitura de um livro a que volto muitas vezes, nele descobrindo coisas diferentes a cada leitura: The Presentation Secrets of Steve Jobs, de Carmine Gallo. Deixo algumas das lições que para mim foram mais importantes, mas ler o livro completo ajuda a perceber o “porquê” das estratégias de comunicação e é muito enriquecedor para quem queira chegar ao nível seguinte no que toca a comunicar com uma audiência.

 

De acordo com Carmine Gallo, uma apresentação inesquecível assemelha-se à estrutura de uma peça em três atos. Do mesmo modo, preparar uma apresentação tem três fases: criar uma história, proporcionar a experiência e limar/ensaiar.

Organizar meticulosamente cada uma destas fases – tal como Jobs fazia – vai permitir-lhe fazer apresentações incríveis.

 

 

Lição nº 1 – Contar uma história   

 

As técnicas de apresentação de Steve Jobs fizeram dele o mais espetacular storyteller do mundo empresarial. E porquê? Jobs sabia contar uma história como ninguém. Cativava a audiência e conseguia habilmente mantê-la em suspenso, num mundo de estímulos constantes e em que as pessoas se sentem entediadas com a maior das facilidades. Não dê ao seu público qualquer oportunidade para se distrair: conte uma história. Melhor, conte uma boa história.

Como fazer:

  • Antes de abrir o Powerpoint e desenhar os slides, pense no que quer dizer. Faça um plano geral da sua apresentação num caderno ou num documento de Word e depois registe as suas ideias e escreva um guião tão completo quanto possível. Identifique uma única grande ideia que quer que fique na memória do seu público e apoie-a em três grandes mensagens. Se nesta fase ficar com uma ideia clara do que será a sua apresentação, de qual será a história que vai contar, será muito fácil e intuitivo transpor depois essa narrativa para o Powerpoint.

 

  • Encontrar a sua paixão. Bud Tribble, vice-presidente de tecnologia de software da Apple, dizia que Jobs projetava “um campo de distorção da realidade” – tinha uma visão de tal forma apaixonada, que era capaz de convencer qualquer pessoa em relação ao que acreditava. Não estou a incentivá-lo a ser fanático: seja, sim, entusiástico, lembre-se do que o apaixona acerca do tema e seja sincero ao partilhar essa emoção.

 

  • Criar uma (pequena) grande frase. Em 2007 Steve Jobs apresentou o iPhone ao anunciar “Hoje, a Apple reinventa o telefone!” – uma frase que dificilmente alguém esquece. E o que dizer da apresentação do iPod com a frase “1000 canções no seu bolso”? Seja criativo, mas sucinto. Pense numa frase capaz de criar impacto e de resumir a principal ideia que quer passar ao seu público.

 

  • Mostrar o caminho. Guie o público para que ele o siga com entusiasmo: mostre-lhe para onde o pretende levar com as suas palavras e seja tão específico quanto possível ao apresentar a agenda da apresentação. Use uma estrutura em três fases para que o público sinta que a sua apresentação está organizada e tem um princípio, meio e fim. Ao apresentar o iPhone, Jobs anunciou: “Hoje, vamos apresentar três produtos revolucionários” e depois apresentou “um iPod com controlos touch, um telemóvel revolucionário e um inovador dispositivo com Internet”.

 

  • Apresentar o grande vilão. O anúncio do primeiro Macintosh, emitido no intervalo do Super Bowl de 1984, tornou-se icónico e é considerado um dos melhores produtos de publicidade de sempre. O anúncio mostra um líder Orwelliano num ecrã, falando para um público obediente e meio dormente. Até que uma jovem corre na sua direção e arremessa uma marreta, que faz explodir o ecrã. O spot termina com a mensagem: “No dia 24 de janeiro, a Apple vai lançar o Macintosh e verá por que razão 1984 não será como o 1984”. O vilão de estilo big brother do anúncio representava o Big Blue da IBM – nada menos do que o então principal concorrente da Apple. Encontre o vilão da sua história e mostre de que forma o seu produto o vai derrotar.

 

  • Revelar o herói. É claro que não pode haver vilão sem herói. Em 2001 Steve Jobs apresentou o iPod explicando os problemas dos aparelhos portáteis que então existiam no mercado: o número limitado de canções que permitiam ouvir, por exemplo. Depois de o fazer, Jobs fez do iPod o grande herói mostrando que permitia aos utilizadores guardar mil canções. Apresente os problemas da sua indústria destacando a fraca resposta dos atuais produtos ou serviços no mercado. Em seguida, mostre a sua visão de como aquilo que tem para oferecer irá revolucionar esse cenário, trazendo melhorias expressivas.

 

Lição nº 2 – Suscitar emoções

 

Para captar a atenção do público, tem de ser capaz de criar uma experiência rica e visualmente envolvente. Mais do que factos, números e um conjunto de benefícios, o público envolve-se com histórias, sentimentos e emoções com os quais se identifique.

 

Como fazer:

  • “A simplicidade é o cúmulo da sofisticação”. Esta era uma das máximas de Steve Jobs e aplicava-se tanto ao design dos seus produtos, como à forma como decorava a casa ou se vestia. Também as suas apresentações eram disso exemplo. Opte pela simplicidade e elegância nas palavras, no design dos slides, e nas ideias comunicadas. Crie slides simples e com mais imagens do que palavras. Não use bullets, que normalmente derivam em listas sem qualquer emoção ou contexto e prefira palavras fortes e que marquem uma audiência.

 

  • Enquadre os números. Os números significam muito pouco, a não ser que lhes dê um contexto. Em 2003 a revista Rolling Stone perguntou a Jobs se o incomodava o facto de a Apple ter apenas 5% do mercado dos computadores pessoais. A resposta de Jobs foi “A nossa quota de mercado é maior que a da BMW ou da Mercedes no sector automóvel”. Ao fornecer um contexto para os números da Apple, Jobs mudou totalmente o seu significado. Fuja da tentação de massacrar a sua audiência com um conjunto de números sem significado.

 

  • Afaste-se do jargão. Jobs praticamente não falava em gigabytes ou outro jargão – preferia em vez disso dizer que no iPod cabiam mil canções. Em vez de uma lista de caraterísticas técnicas, fale em benefícios emocionais e que acrescentem real valor para as pessoas.

 

  • Seja criativo e não se fique pelo Powerpoint. Faça demonstrações, traga objetos para o palco, mostre ao seu público do que está realmente a falar. Isto chama a atenção, estimula a curiosidade e mantém o público interessado no que se passa no palco.

 

  • Crie um momento fantástico. Para demonstrar como o MacBook Air era fino, Jobs retirou o portátil de um envelope enquanto estava no palco e anunciava tratar-se do “notebook mais fino do mundo”. Um gesto simples, mas que demonstrou perfeitamente a afirmação de Jobs. Mais do que ouvir, o público pode ver um computador tão fino que cabia realmente num envelope. Programe momentos que arranquem um “UAU” ao seu público e envolva-o na sua apresentação.

 

Lição nº 3 – Praticar, praticar, praticar

As boas apresentações são aquelas que ninguém diz que foram ensaiadas até à exaustão, quando na verdade, demoraram horas a serem preparadas. Ensaie tantas vezes até que o que diz lhe sai de forma absolutamente natural. Pratique em frente a colegas e amigos e peça uma opinião construtiva sobre o que pode melhorar. Quando mais praticar, mais à vontade se vai sentir e um maior controlo terá sobre todos os aspetos da apresentação. Jobs passava semanas a ensaiar as suas apresentações e certificando-se de que tudo estava como ele queria até ao mais ínfimo detalhe. Slides, música, convidados, discurso, pausas – nada era deixado ao acaso e tudo era meticulosamente pensado para causar o máximo impacto no público.

 

Como fazer:

  • Domine a linguagem corporal. Filmar-se a praticar pode ser uma excelente ferramenta para perceber como pode melhorar a sua linguagem corporal e projeção de voz.

Mantenha sempre um contacto visual forte com os membros do público e não se esconda atrás do púlpito. A sua postura deve ser aberta e os gestos constantes. Altere o tom e o volume da voz, e o ritmo das palavras. Lembre-se que não está a falar sozinho: chame o público para si.

  • Esqueça o discurso. Embora Jobs se preparasse o máximo possível, nunca lia um guião. Pode usar as notas do Powerpoint para o ajudar, claro. O que não deve é dar a impressão de que está a ler. A ideia é praticar tanto que acaba por incorporar o seu discurso, de forma natural. Se ensaiar muitas vezes, vai conseguir lembrar-se do que tem para dizer, de forma fluída e descontraída.

 

Quando assistimos a uma apresentação que nos causa um impacto duradouro, somos tentados a pensar que o orador tem um talento natural para falar em público.

O que Steve Jobs me ensinou, é que ser um grande orador é muito mais do que ter uma inata apetência para o palco: é fruto de uma preparação meticulosa e de um trabalho persistente. E essas são ferramentas que estão ao alcance de todos.